Como perpetuar o patrimônio de uma família?

Por Michael Viriato

Perpetuar o patrimônio de uma família para que ele não seja dilapidado ao longo do tempo é um desafio no mundo inteiro. A matemática simples favorece o descontrole, pois os herdeiros crescem em proporção geométrica à medida que se passam as gerações, mas o patrimônio mal administrado não cresce na mesma velocidade.

Existe uma sabedoria popular que diz “pai rico, filho nobre, neto pobre”. Para interromper esse círculo vicioso, Antonio Fernando Azevedo, Grégoire Balasko Orélio e Marcelo Geyer Ehlers escreveram o livro “A Família Investidora e o Family Office”.

O livro trata sobre o processo de estruturação e gestão de uma empresa familiar de investimentos. Os autores ensinam como organizar a empresa familiar de forma que a riqueza seja perpetuada pelas gerações.

Nesta terça-feira, 5 de dezembro, os autores estarão às 19:00 horas na Livraria Cultura do Iguatemi Faria Lima de São Paulo para lançarem seu livro.

Tive a satisfação de entrevistar Azevedo e transcrevo abaixo os principais pontos discutidos.

1) Quais as estratégias que um investidor deveria adotar para se preparar para a criação de uma Família Investidora?
Algumas estratégias seguidas pelas famílias investidoras em seus Family Offices podem se aplicar a qualquer investidor. Destacaria algumas:

  1. Definir claramente os objetivos em relação aos seus investimentos, pois como investirá (horizonte, classes de ativos, nível de risco e liquidez) depende muito disso.
  2.  Controlar os custos dos investimentos é fundamental. O investidor precisa conhecê-los e se certificar de que sejam adequados e compatíveis com retornos e complexidade dos produtos financeiros, sejam eles custos diretos ou indiretos.
  3.  Adotar uma visão holística sobre o portfólio, avaliando como seu patrimônio “trabalhará” para cumprir seus objetivos de maneira sistêmica e estratégica.
  4.  Planejar e estabelecer bem as regras e controles das retiradas para despesas programadas, considerando também uma reserva para eventos inesperados, e as perspectivas de novos investimentos.

Já o conceito de family office pode ser adaptado para um investidor quando este passar a ter um objetivo de herança em relação a seus investimentos, ou seja, seus objetivos em relação ao patrimônio passarem a incluir também novas gerações como filhos e netos.

2) Com o cenário atual de queda de juros, o que recomendaria a um investidor de perfil moderado?

Em primeiro lugar, é importante que o investidor com visão de longo prazo se preocupe mais com os juros reais, ou seja, os juros acima da inflação, do que com os juros nominais. A queda atual de juros nominais de 14% ao ano em 2016 para próximo de 7% ao ano em 2017 veio acompanhada de queda da inflação de modo que os juros reais permanecem altos no Brasil em relação à maioria dos países do mundo, e na parte mais longa da curva de juros, eles ainda continuam atrativos.

Um portfolio de investimentos bem equilibrado, com os objetivos do investidor bem definidos, horizonte de longo prazo, visão global dos ativos e boa diversificação deveria buscar ganhos advindos de reduções futuras dos juros reais.

Também é bom lembrar que o Brasil é um país emergente e os cenários de investimentos mudam, muitas vezes, de maneira abrupta. Portanto, cuidado para não tomar ações imediatistas. Concentre-se em seguir sua política de investimentos.

A diversificação é importante para o investidor que objetiva o longo prazo. Portanto, assim espera-se um posicionamento em juros reais, alguma exposição em bolsa no Brasil e no exterior, diversificação em moedas (Dólar principalmente) e nos melhores gestores de fundos multimercado.

3) O que recomendaria para um investidor que investe para a aposentadoria?

O grande desafio neste caso é semelhante ao de uma família investidora, ou seja, gerenciar o orçamento de maneira a acumular patrimônio e depois gerenciar este patrimônio com uma estratégia de preservação ao mesmo tempo em que produz uma renda periódica.

Uma lição interessante seria pensar em como os grandes investidores institucionais do mundo, com horizonte de longo prazo, montam suas carteiras e estratégias de investimentos, sejam Family Offices, Endowments ou os melhores gestores de fundos de investimentos. É fundamental estar sempre atualizado sobre o mercado, a economia, como sobre os produtos financeiros. Isso pode ser realizado por meio de livros, palestras (existe muita coisa boa no Youtube) ou os próprios relatórios mensais dos gestores de fundos ou Endowments.

O processo de se tornar uma família investidora como descrito no livro pode ser adaptado por qualquer um com visão de longo prazo, como aposentadoria. É fundamental ter muito disciplina no processo, controles de todos os passos e tentar entender ao máximo os produtos financeiros.

4) Seu livro é sobre a organização e gestão de grande fortunas, mas como isso pode ser aplicado ao pequeno investidor?

Muitos dos conceitos descritos no livro podem ser aproveitados por todos os investidores, não somente os de alta renda que conseguem montar seus Family Offices.

O investidor precisa conhecer bem onde e como está investindo, saber onde quer chegar e ter uma estratégia clara de como chegar lá. Fazendo isso e tendo processos de controle, ele estará assumindo o papel de protagonista na gestão de seu patrimônio, que é fundamental para que tenha sucesso no longo prazo.