Seu fundo de ações tem um alto Active Share?

Por Michael Viriato

Recentemente, o debate sobre a vantagem do investimento em fundos ativos tem crescido. O debate é mais intenso internacionalmente onde há ampla variedade de alternativas para se investir passivamente. A dúvida ocorre, pois vários estudos demonstram a dificuldade de fundos ativos obterem desempenho melhor que seus índices de referência. Devido às particularidades do Brasil, o investimento passivo não é uma alternativa trivial, mas podemos importar a tecnologia de seleção de fundos ativos para aplicar aos nossos.

Internacionalmente, o investimento em fundos passivos é muitas vezes realizado por meio dos chamados ETFs (Exchange Traded Fund – Fundos Negociados em Bolsa). Esses fundos apenas replicam um índice (benchmark) de renda fixa, commodity ou de ações. Por não demandar uma equipe de analistas e economistas, eles possuem taxa de administração baixa. No Brasil, os dois ETFs com maior liquidez são o BOVA11 e o PIBB11. Existem outros ETFs, mas eles possuem liquidez reduzida para negociação.

Como não temos uma indústria de produtos passivos desenvolvida, devemos atentar para escolher os melhores fundos de ações do mercado. Em 2009, Petajisto e Cremers apresentaram um índice que consegue prever a habilidade dos fundos de ações baterem seu benchmark. Eles testaram este índice entre 1980 e 2003 com 2647 fundos nos Estados Unidos.

O índice foi batizado com o nome de Active Share (participação ativa) e representa quanto os pesos nas ações no fundo diferem dos pesos no benchmark, ou seja, o percentual do fundo que se diferencia de seu índice de referência. Os autores verificaram que, em média, aqueles fundos cujos gestores alocaram ações com percentual mais divergente de seus índices de referência, apresentam melhor desempenho que esse índice mesmo considerando as taxas de administração. Ao mesmo tempo, os fundos com baixo Active Share não seriam capazes de desempenhar acima de seus benchmarks.

Analisando a aplicação dessa tecnologia para o Brasil, tive o privilégio de fazer parte ontem da banca avaliadora de Mestrado Profissional em Economia no Insper do aluno Tarcísio Souza. Sob orientação do professor Ricardo Brito, ele calculou o Active Share de 1049 fundos de ações brasileiros entre 2008 e 2016 e testou se esse índice também seria capaz de prever melhores retornos para esses fundos. Souza encontrou resultado similar ao dos autores internacionais.

Segundo Souza, o Active Share no Brasil é menor que nos Estados Unidos, mas isso pode ser atribuído às características do mercado brasileiro, como menor liquidez e menor número de ações que nos Estados Unidos.

Tarcísio Souza na defesa de sua dissertação no Mestrado Profissional em Economia no Insper.

Para calcular o Active Share, ele usou o sistema de informações Quantum. É provável que você não tenha acesso a esse sistema, mas ainda assim pode estimar se seu fundo tem um Active Share elevado. Você pode capturar os pesos do Ibovespa no site da bolsa de valores B3, e o peso das ações no seu fundo com três meses de defasagem, no site da CVM (Comissão de Valores Mobiliários).

O índice pode ser calculado somando as diferenças entre pesos nas ações do seu fundo e do Ibovespa e dividindo por dois. Segundo Souza, os fundos que mais se destacaram apresentaram Active Share entre 20% e 40%.

Avalie qual o percentual das participações em seu fundo de ações se diferencia dos pesos no índice Ibovespa, ou seja, se ele possui um alto Active Share. Caso seu fundo tenha um índice menor que 20%, avalie o investimento em outros fundos de ações ou nos ETFs mencionados acima. Você verá que pode melhorar o desempenho de seu portfólio com essa simples análise.