Como a queda da Selic afeta sua aposentadoria?

Michael Viriato

O Comitê de Política Monetária (COPOM) reduziu mais uma vez a taxa básica de juros Selic para seu mínimo histórico de 6,75% ao ano. O patamar atual dessa taxa terá impacto relevante na aposentadoria dos brasileiros. Esse impacto é ainda mais relevante, pois a maior parte dos investidores aplica suas economias de forma conservadora, tanto em produtos de previdência quanto fora deles. Para reduzir esse impacto, descrevo abaixo algumas dicas sobre o que fazer com seus investimentos.

Como a taxa do CDI é um pouco menor que a taxa Selic, ela estará em 6,64% ao ano a partir dessa quinta-feira. Isso significa que a rentabilidade mensal de produtos que rendem 100% do CDI será de 0,54%. Os títulos referenciados à Selic, não rendem a taxa Selic Meta definida pelo Copom, mas a Selic diária divulgada pelo Banco Central e que será de 6,65% ao ano. A diferença entre as duas taxas é desprezível. Portanto, os títulos referenciados aos dois indexadores remuneram praticamente o mesmo retorno.

Conforme mencionei no passado, com essa taxa, o investidor dobra o capital investido apenas em cerca de 11 anos. Isso quer dizer que um investimento de R$10 mil a 100% do CDI, vai se transformar em R$20 mil apenas em 11 anos. Portanto, para que consiga acumular o mesmo valor que esperava anteriormente para sua aposentadoria, terá de fazer uma (ou todas) das três alternativas: elevar o valor economizado mensalmente, trabalhar por mais tempo, ou elevar o risco dos investimentos. Acredito que o momento não permite que você economize mais e você não deseja trabalhar por mais tempo. Logo, vai ter de ajustar o perfil de risco de seus investimentos.

Fundos multimercado
Os fundos multimercado são os melhores veículos para aqueles investidores conservadores iniciarem os investimentos de maior risco. Com esses fundos, o investidor poderá ter acesso a todos os mercados: juros, câmbio e bolsa. Você poderá contar com toda uma equipe para selecionar os melhores investimentos e o momento mais adequado para alocar em cada um. Escrevi recentemente dicas de como selecionar um bom fundo.

Renda fixa
Para elevar o ganho obtido na parcela de renda fixa, será necessário realizar três estratégias: maior vencimento, títulos e fundos com remuneração diferente do CDI (prefixados e referenciados a IPCA) e títulos ou fundos de crédito privados.

Diversifique uma parte dos títulos que possui na plataforma do Tesouro Direto para CDBs, CRIs, CRAs e debêntures incentivadas. Evite ter mais de 3% de seu patrimônio por emissor para os títulos privados que não contam com garantia do FGC. Uma forma de ter essa diversificação é investir por meio de fundos de crédito privado, pois você conta com um profissional para selecionar as melhores emissões.

Com o alongamento dos títulos de sua carteira e a diversificação em indexadores diferentes do CDI poderá ter retornos superiores ao CDI. Mas, entenda que títulos com vencimento longo podem ter risco tão elevados quanto fundos de ações pagadoras de dividendos.

Fundos de ações e de Investimento Imobiliário
Mesmo investidores conservadores podem ter uma pequena alocação em fundos de ações pagadoras de dividendos ou em Fundos de Investimento Imobiliários (FIIs). Para os pequenos investidores, os fundos de ações de empresas pagadoras de dividendos são mais adequados que os FIIs, devido ao reinvestimento dos dividendos. Os pequenos investidores não conseguem reinvestir os dividendos e esse reinvestimento é uma parcela relevante do retorno total. Explico outras vantagens no link.

Evite investir em ações diretamente se não tem conhecimento ou não se dedica a estudar o mercado e acompanhar os resultados das empresas. Existem grandes vantagens de se investir em ações por meio de fundos que mais do que compensam a taxa de administração cobrada. Veja os motivos para se investir por meio de fundos no artigo que escrevi.

Os FIIs se mostram como uma boa alternativa de diversificação. Entretanto, lembre-se que eles são um produto de renda variável e podem apresentar forte volatilidade. Para os iniciantes, opte pelos fundos de FIIs. Com eles é possível ter um portfólio diversificado de forma mais simples e ainda contar com um gestor para fazer a seleção dos melhores produtos para você. Veja algumas dicas no link.

Investimento internacional
No atual patamar de taxa de juros, fica mais justificável a diversificação internacional. Atualmente, está mais fácil realizar essa diversificação sem precisar mandar dinheiro para o exterior e sem correr o risco cambial. Existe uma boa oferta de fundos internacionais, COEs e fundos multimercados que investem no exterior.

Embora os fundos internacionais sejam exclusivos para investidores qualificados (com mais de R$1 milhão em aplicações financeiras), há uma disponibilidade crescente de COEs de fundos de investimento internacional. Essa é uma nova modalidade que tem atraído grande interesse aqui e no exterior. Nela é possível ter a rentabilidade dos produtos internacionais multiplicadas por até cinco vezes. Entenda como isso é possível no artigo que escrevi.

Poupança
Você provavelmente leu que vários fundos perdem da poupança. Mas isso não é um motivo para ficar na poupança. Ela continua inadequada para investimentos previdenciários. Você deve fugir da poupança e dos fundos que perdem dela.

Previdência privada
Realize a portabilidade de seu plano de previdência, fugindo de produtos referenciados ao CDI e que possuam alta taxa de administração.

Vivemos um momento de forte volatilidade e a simples queda dos juros não é razão para se comprar ações e fazer apostas em ativos de alto risco que não conheça ou não seja adequado ao seu perfil. Entretanto, estamos convergindo para taxas de juros mais próximas de patamares internacionais. Portanto, gradativamente você deve aproximar sua carteira para a forma de atuação desses investidores internacionais, ou seja, com produtos de maior risco e com maior horizonte de investimento. Assim, suas economias serão melhor remuneradas e sua aposentadoria mais tranquila.