6 dicas de quem já fez fortuna para você chegar lá

Michael Viriato

Construir um patrimônio, que seja capaz de proporcionar independência financeira, é um desejo compartilhado por todos no mundo. Pensando nisso, o jornal Chicago Tribune atribuiu ao jornalista Richard Gosswiller a tarefa de entrevistar personagens de sucesso daquela cidade americana e descobrir a resposta à pergunta:

“Se você fosse um jovem hoje e tivesse US$ 5 mil para investir, o que você faria com esse dinheiro?”

O artigo foi publicado em 6 de dezembro de 1970, mas seus ensinamentos são válidos até hoje. O texto fez tanto sucesso que foi republicado em 1972, como um dos capítulos, no livro “Os muito, muito ricos e como eles conseguiram chegar lá” do autor Max Gunther e editora Best Business. Gunther é reconhecido por seus livros relacionados a investimentos, em especial seu best seller “Os axiomas de Zurique”.

Quase meio século se passou desde a publicação do artigo original. Portanto, é necessário corrigir o valor pela inflação. Considerando a taxa de câmbio, o valor em Reais hoje seria próximo de R$ 100 mil. Apesar do montante parecer elevado para a realidade do jovem brasileiro, a noção do valor é importante para colocar em perspectiva as recomendações dadas.

Nove ricas personalidades da época compartilharam uma dica para a pergunta acima. Abaixo, comento as respostas.

Mercado de ações

A maioria dos entrevistados elegeu o mercado de ações como a melhor oportunidade para jovens iniciarem seus investimentos com o objetivo de no longo prazo fazer fortuna.

As dicas foram diversas. Um deles recomendou a concentração em apenas uma ação. Como a escolha é difícil, ele deu as características que devem ser buscadas:

“Uma maneira de se ganhar uma fortuna é envolver-se com uma empresa cujo produto seja demandado por um grande mercado. Não é importante que o produto seja realmente necessário, apenas que as pessoas sintam que precisam dele. O produto deve ser descartável e vendido a um baixo custo, capacitando a empresa a vendê-lo repetidamente para os mesmos clientes e em grande volume. Além disso, o homem que administra a empresa deve ser dedicado e deve ter uma participação acionária no crescimento da empresa.” Clement Stone – Presidente do Conselho da Combined Insurance Company of America.

De forma mais conservadora, dois preferiram a diversificação nos investimentos. Um deles sugeriu dividir o valor em seis Blue Chips. Estas ações são as maiores e mais negociadas no mercado. Por exemplo, atualmente no brasileiro, estas seis ações poderiam ser selecionadas entre as dez seguintes: Itaú, Vale, Bradesco, Petrobras, Ambev, Banco do Brasil, B3, Itausa, Lojas Renner, Suzano.

Um dos entrevistados reforçou as vantagens de contar com uma equipe de analistas e gestores e recomendou o investimento no mercado de acionário por meio de fundos de ações.

Interessante notar a vantagem desta última recomendação. Quase todas empresas que foram citadas no texto não existem mais, ou porque faliram, ou não seguem como eram antes, pois foram compradas, ou foram divididas em outras.

As seis Blue Chips daquela época também já deixaram de ser um bom investimento há tempos. Isso reforça a falácia de que existe uma ação para comprar e esquecer. Os seja, quem comprou as maiores e mais negociadas daquela década, hoje, possivelmente, teria problemas com sua aposentadoria.

Negócio próprio

Dentre os ricos, dois recomendaram abrir um negócio próprio ou usar o capital para se associar a uma empresa em estado inicial.

A dica de um dos empresários é focar em empresas de serviço. Assim, evita-se alguns problemas de empresas industriais e demanda-se menos capital empregado.

Esta alternativa sem dúvida pode trazer mais retorno que o investimento no mercado de ações, mas possui um risco significativamente maior.

Para ser negociada em bolsa de valores, uma empresa normalmente já atingiu um estágio de maturidade maior e já teve seu produto aprovado pelo mercado. Portanto, possui um fluxo de caixa mais previsível que o de um negócio inicial. Logo, um menor risco de insucesso.

O maior risco pode ser recompensado com altíssimos retornos. No entanto, as estatísticas mostram que as chances de fracasso e perda do capital são maiores que a de fazer fortuna. Lembro que retorno esperado, que se diz ser maior que o de investimento em ações, é o produto das probabilidades em cada cenário pelo respectivo resultado. A probabilidade de sucesso é baixa, mas os resultados são muito compensadores. Mas eles precisam ser realmente altos para que aceite investir.

Por exemplo, considere que a probabilidade de prosperar seja de 20%, pois pelo menos uma em cinco empresas iniciais fecham. Assim, o negócio precisaria, no caso de sucesso, ter a capacidade de multiplicar seu investimento por pelo menos 10 em cinco anos. Caso contrário, não terá retorno esperado melhor que o investimento em ações que hoje seria de cerca de 15% ao ano. Um retorno de 15% ao ano duplica o investimento em cinco anos.

Nos dias de hoje, empreender está se tornando cada vez mais fácil dado os avanços tecnológicos. Um exemplo é a empresa de meios de pagamentos Stone que não existia há cinco anos atrás e no ano passado abriu seu capital na bolsa de valores americana Nasdaq, sendo avaliada em mais de R$ 30 bilhões.

Setor imobiliário

O setor imobiliário nunca ficou de fora quando se pensa em investimentos. E também foi a preferência de dois empresários.

Um deles optou pela aplicação em imóveis prontos para alugar e outro pela aquisição de terrenos.

Mas não é qualquer imóvel e está longe do que muitos fazem atualmente, pagando caro por imóveis na planta. Eles sugerem imóveis velhos em regiões com potencial para desenvolvimento. Estes imóveis deveriam ser reformados para valorizar e vender ou alugar com maior rentabilidade.

Alternativamente, sugere-se a aquisição de terrenos em desenvolvimento na periferia da cidade. Recomendam estudar o desenvolvimento de estradas, pois os terrenos nestas localidades podem se valorizar. Novamente, diferente do que os indivíduos praticam.

Tenho certeza que, se os fundos imobiliários já existissem naquela época, eles teriam sido sugeridos como alternativa tanto para ativos em desenvolvimento quanto prontos.

Mercado de derivativos

O presidente do conselho da bolsa de mercadorias de Chicago, Leo Melamed, sugeriu o investimento mais arriscado de todos. Ele recomendou aplicar em commodities.

Normalmente esse investimento é realizado por meio dos instrumentos financeiros chamados de derivativos. Essa aplicação tem a possibilidade de proporcionar retornos elevados em pouco tempo. No entanto, como o retorno sempre vem acompanhado do risco, com esta alternativa, você pode perder todo o capital em instantes.

O empresário alerta para esse risco de perda e adverte que mesmo profissionais experientes falham e perdem fortunas neste mercado.

Investimentos seguros

Um dos empresários sugeriu que todos devem iniciar com alternativas conservadoras. Ele recomendou que um indivíduo só deveria arriscar seu capital quando tivesse acumulado o suficiente para poder se sustentar se perdesse o emprego.

Ele sugeriu que o foco inicial do aplicador deve ser a educação financeira e aplicações sem risco de perdas. No Brasil, essas aplicações seriam títulos bancários, como CDBs, fundos de renda fixa e títulos públicos.

Educação financeira

Todos os empresários recomendaram o estudo e trabalho antes de realização dos investimentos. Nenhum deles falou que o investimento seria simples e que não seria necessário pesquisa e acompanhamento para avaliar as aplicações.

Ressalto o alerta de Gosswiller. O fato de os entrevistados serem ricos, não significa que eles estejam certos ou que suas dicas não possam conduzir à perda completa do patrimônio de alguém que as siga. No entanto, como o autor sugere, melhor ouvir quem atingiu a riqueza do que quem ainda não conseguiu chegar lá.

Michael Viriato é professor de finanças do Insper e sócio fundador da Casa do Investidor